Sniper Americano e a cegueira de Clint Eastwood

ed6A “cota patriótica” do Oscar 2015, “Sniper Americano”, mostra serviço e fatura alto. Só no fim de semana da estreia, arrecadou 90 milhões de dólares nos EUA. Clint Eastwood, o diretor do longa, já comemora o recorde: superou produções gigantes como Avatar e A Paixão de Cristo.

A trama –  um texano que vira “lenda” por ser o atirador mais letal da história do exército americano –  é uma adaptação do livro American Sniper: The Autobiography of the Most Lethal Sniper in U.S. Militar History, história real de Chris Kyle, o tal atirador legendário, que como se diz nos grotões do sertão, “tem mais de 150 mortes nas costas”.

Exímio na pontaria, Kyle é obcecado por aquele papo de serial killer nato que traveste sua tendência assassina e violenta na defesa do país (tipo Dexter, saca?).

Desde garoto, já recebia a educação exemplar de seu pai, típico cidadão americano que presenteia o filho com armas de fogo, convida o moleuqe para caçar animais indefesos por diversão e sempre agradece ao seu particular deus cristão por viver em um grande país, a América.

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Munidos dos conselhos paternos sobre como usar a força para se sobressair no convívio social (mais uma vez, a violência justificada pelo bem do próximo), nosso protagonista cresce esmurrando quem quer que se interponha no seu caminho, além de ter uma profissão de “macho”, ou seja, cowboy, ganhando a vida com rodeios, ou seja, pegando uns trocados para machucar animais indefesos.

Um belo dia vê as torres gêmeas irem abaixo na TV. Interpretando a cena como um chamado para servir à pátria contra o “terror do oriente”, alista-se no exército e o que vemos em seguida são mais ou menos 30 minutos de cenas de superação, onde pretensos soldados sofrem humilhações diversas para entrar no grupo de elite Navy Seals. O resto, deixo por sua conta e risco, nesta que é uma das narrativas de guerras mais mornas e insossas da história do cinema.

Eastwood, que já dirigiu grandes filmes do gênero como Letters from Iwo Jima, não consegue passar nada de bom e positivo com a produção. Não há resquício de uma discussão filosófica, nenhuma autocritica, uma edição que valorizasse o que está sendo contado. Só sequências de cenas fracas, insípidas, sem carga dramática. Apenas soldados atirando e gritando “Die, motherfuckers, die!”.

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Difícil mesmo é crer que Clint estava por trás das câmeras, orquestrando a exibição do pior lado da América, a autoproclamação de soberania sem limites.

Parece que ele deixou-se levar pelo espírito estadunidense, cego pelo brilho de sua própria grandiosidade. E como se sabe, esse orgulho exagerado é um pulo para a vaidade. No contentamento de si próprio, há de brinde o desprezo pelos outros. A cultura oposta, o estrangeiro, é sempre uma ameaça. Isso a fita trata muito bem.

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Comté já dizia que “todo orgulho, por definição, é injusto: sem justiça para com os outros, sem justeza para consigo. É tão somente uma armadilha do amor-próprio”.

Se uma mentira contada 1000 vezes torna-se verdade, a exaltação de si próprio ou de sua cultura repetida à exaustão, torna defeituosa uma nação inteira, já que orgulho é ainda uma distorção disfarçada de virtude, ou como se diz no mundo acadêmico filosófico, “uma pequenez que se crê grande”.

Seth Rogen, de “A Entrevista”, percebeu que tinha alguma coisa errada ali e teceu um comentário polêmico em sua conta no Twitter. O comediante associou o longa indicado a 6 Oscars (incluindo Melhor filme e Melhor ator) a uma propaganda nazista. “Sniper Americano meio que me lembra o filme exibido no terceiro ato de ‘Bastardos Inglórios’”, postou Rogen, fazendo referência a ‘Stolz der Nation’ (Orgulho da Nação), propaganda nazista sobre um atirador alemão que mata soldados do alto de uma torre.

 

 

E American Sniper vai por esse caminho. É, de fato, propaganda militar, de recrutamento, engodo para atrair ainda mais jovens malucos por matar com a ressalva de proteger o país.

O brilho da nação abençoada pelo deus todo poderoso, faz crescer o orgulho norte-americano. O resplendor é tanto que cega os olhos. E a lente da câmera de Clint Eastwood está opaca. Ou, quem sabe, seus 84 anos pesam em sua retina.

Bradley Cooper, na pele de Kyle (intranquilo por estar em casa, louco para voltar à guerra), segura uma criança de plástico no colo. Metáfora perfeita para o filme: tudo ali é sobre o orgulho de matar em nome da proteção de uma nação de crianças de plástico, que dormem tranquilamente, alheias mundo, nos braços de um “herói”.

Ufa!

O filme termina, bolas escrotais de paciência quicam por todos os lados da sala de exibição antes de explodirem no ar.

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